top of page

Palm Cooling: O Segredo do Gelo nas Mãos na Copa 2026

  • há 22 minutos
  • 6 min de leitura

Por Guilherme Moura — Nutricionista Esportivo (USP) | Junho de 2026 | Tempo de leitura: 4 minutos

Jogador da Copa 2026 usando técnica de palm cooling com gelo nas mãos durante pausa de hidratação

Se você está assistindo aos jogos da Copa do Mundo 2026, deve ter reparado em algo estranho durante os intervalos. Os jogadores não estão só bebendo água. Tem gente segurando bolsas de gelo, colocando toalhas geladas nas mãos, vestindo equipamentos que parecem saídos de um filme de ficção científica.

Você já parou pra pensar: por que especificamente nas mãos? Por que não na cabeça ou no peito? Tem uma razão científica bem legal por trás disso.

O Problema: Por Que o Calor Destrói a Performance

Calor extremo nos estádios da Copa do Mundo 2026 - temperaturas acima de 30°C em Miami, Houston e Los Angeles

Antes de tudo, vamos entender por que o calor é tão ruim para o atleta. A Copa está sendo disputada em cidades como Miami, Houston e Los Angeles, onde as temperaturas passam de 30°C. Para um jogador que corre 10 km em 90 minutos com múltiplos sprints de alta intensidade, isso é praticamente um inferno.

Quando você se exercita, seu corpo gera calor. Muito calor. Na verdade, apenas 20% da energia que você gasta é convertida em movimento. Os outros 80% viram calor puro [1]. Se esse calor não sair do corpo, a temperatura interna sobe, e aí começa o problema.

O corpo tenta se resfriar de um jeito: suando e mandando mais sangue para a pele. Mas aí tem um detalhe chato. Esse sangue que deveria estar indo para os músculos agora está indo para a pele. Resultado? Menos oxigênio nos músculos, menos força, mais cansaço. O coração bate mais rápido tentando compensar. Você perde água e sais minerais pelo suor. É uma cascata de problemas.

E tem mais um detalhe que descobriram recentemente. Existe uma enzima nos músculos chamada MPK (Músculo Piruvato Quinase) que é responsável por gerar energia. Essa enzima é extremamente sensível à temperatura. Quando a temperatura muscular chega perto de 40°C, a enzima começa a se deformar. Acima de 40°C, ela para de funcionar completamente [2].

Isso não é um defeito. É um sistema de proteção. A célula muscular essencialmente fala: 'Se a gente continuar assim, a gente vai cozinhar'. A fadiga que você sente é o corpo te obrigando a parar antes de se danificar.

A Descoberta Maluca de Stanford

Dispositivo CoreControl de resfriamento palmar desenvolvido pela Universidade de Stanford - luva que usa vácuo e água fria para resfriar as AVAs

Tudo começou com ursos. Sim, ursos.

Pesquisadores da Universidade de Stanford (H. Craig Heller e Dennis Grahn) estavam estudando como os ursos negros, que têm uma pelagem espessa e muita gordura, conseguiam não morrer de calor no verão. E descobriram algo fascinante: quase todos os mamíferos têm 'radiadores naturais' em certas partes do corpo [3].

Os coelhos têm nas orelhas. Os ratos têm na cauda. Os cães têm na língua. Os ursos têm nas patas. E os humanos? A gente tem nas mãos, nos pés e na face.

Especificamente nas palmas das mãos, existe uma rede de vasos sanguíneos chamada Anastomoses Arteriovenosas (AVAs). Diferente dos vasos normais que entregam oxigênio e nutrientes, as AVAs têm um único trabalho: transferir calor [3].

Quando está quente, essas veias se dilatam e deixam passar uma quantidade massiva de sangue. Estamos falando de até 60% de todo o sangue que o coração bombeia passando pelas palmas das mãos [3]. Esse sangue quente vindo do centro do corpo passa pelas mãos, esfria em contato com o ambiente, e volta pro coração mais frio.

É literalmente um radiador de carro, mas dentro do seu corpo.

O Hack: Palm Cooling

CoolMitt - dispositivo de palm cooling para atletas baseado na tecnologia de Stanford, usado entre séries de treino

Os pesquisadores de Stanford tiveram uma ideia: e se a gente otimizasse esse processo?

Eles criaram um dispositivo (chamado de Cooling Glove) que faz duas coisas: cria um leve vácuo ao redor da mão (para manter as veias dilatadas) e resfria a palma com água fria (entre 18°C e 22°C) [4].

Os resultados foram absurdos. Em um estudo, atletas que usavam o dispositivo conseguiam se exercitar por 43% mais tempo em ambientes quentes comparado com quem não usava [4]. Em testes de força, um pesquisador conseguiu aumentar seu total de barras de 180 para 620 repetições em seis semanas usando resfriamento entre as séries [3].

Mas aqui está o detalhe importante: tem que ser a temperatura certa. Se você colocar a mão em gelo direto (0°C), os vasos vão se fechar por proteção, e nada acontece. Tem que ser frio, mas não congelante.

Como Estão Usando Isso na Copa 2026

Jogadores da Inglaterra durante pausa de hidratação na Copa do Mundo 2026 - Harry Kane e equipe usando técnicas de resfriamento

A FIFA criou pausas obrigatórias de 3 minutos para hidratação em cada tempo. Nesse tempo, as seleções estão aproveitando pra aplicar resfriamento.

A Noruega faz exames de urina diários nos jogadores pra monitorar hidratação, e durante os jogos usa toalhas geladas focadas nas mãos e antebraços [5]. A seleção nórdica está levando a termorregulação tão a sério que criou um protocolo científico rigoroso para adaptação ao calor.

Seleção da Alemanha durante pausa de resfriamento na Copa do Mundo 2026 - jogadores usando coletes de gelo e técnicas de termorregulação

A Inglaterra e a Alemanha estão usando coletes de gelo especiais (desenvolvidos pela Adidas) que reduzem a temperatura central do corpo em até 0,5°C em poucos minutos [6]. É tipo um colete que tem gel congelado dentro. Quando vestido, o material descongela lentamente e transfere suas propriedades de resfriamento para o tronco e abdômen.

Seleção da Espanha usando coletes de gelo especiais no treinamento da Copa do Mundo 2026 - equipamento Adidas com gel congelado

A Argentina combina tudo: coletes de gelo, botas refrigerantes, e técnicas de resfriamento nas mãos. Multimodal mesmo [6].

Cobertura da BBC Sport sobre o uso de dispositivos de palm cooling pela seleção da Inglaterra na Copa do Mundo 2026

Um estudo do Imperial College London estimou que cerca de 25% das partidas da Copa 2026 ocorrerão sob temperaturas superiores a 26°C, com pelo menos cinco jogos atingindo a marca de 28°C no índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature) [7]. Isso explica por que as seleções estão investindo tanto em estratégias de resfriamento.

Como Você Pode Usar Isso no Seu Treino

Atleta usando técnica de resfriamento com gelo durante treino em ambiente quente - aplicação prática do palm cooling

A boa notícia é que você não precisa de um equipamento de milhares de dólares. Dá pra fazer em casa.

Se você treina musculação pesada, crossfit, ou corre em lugar quente, tenta isso:

O Protocolo Simples

  1. Leve uma garrafa de água congelada pro treino

  2. Deixa ela suar um pouco (pra não ficar 0°C, tem que estar entre 15°C e 22°C)

  3. Entre as séries pesadas (agachamento, levantamento terra, etc), segura a garrafa com as duas mãos por 2-3 minutos

  4. Observe: sua frequência cardíaca cai mais rápido, você sente menos calor, consegue fazer mais repetições

É simples, mas funciona. A razão é que você está resfriando o sangue que passa pelas mãos, e esse sangue mais frio volta pro coração e reduz sua temperatura central.

O Detalhe da Nutrição

Atleta ingerindo bebida gelada (ice slurry) como estratégia de pré-resfriamento antes de competição em ambiente quente

Aqui está um detalhe que muita gente não sabe. Quando você está muito quente, o corpo desvia o sangue da sua barriga pra tentar esfriar. Isso significa que se você beber água ou carboidrato durante um jogo quente, seu estômago não consegue absorver direito. Você fica com aquele incômodo de água na barriga.

Mas se você resfriar o corpo (com Palm Cooling ou coletes de gelo), o corpo permite que o sangue volte pro sistema digestivo. Aí sim a absorção funciona. É por isso que as seleções combinam resfriamento com hidratação e carboidratos [8].

Tem também o Ice Slurry (raspadinha de gelo com bebida esportiva) que você toma 30 minutos antes do jogo. Seu corpo gasta muita energia pra derreter esse gelo, e isso reduz sua temperatura central antes de você nem começar a jogar. É um 'pré-resfriamento' bem legal [8].

Por Que Isso Importa

Copa do Mundo 2026 - análise do impacto do calor extremo na performance dos atletas de elite

A Copa de 2026 vai ser lembrada não só pelos gols, mas como o momento em que a termorregulação virou tão importante quanto a tática. Ver jogadores segurando gelo, vestindo coletes estranhos, tomando shots de aparência duvidosa... tudo isso é ciência aplicada.

E o mais legal é que essa ciência não é exclusiva dos atletas de elite. Você pode usar os mesmos princípios no seu treino, na sua corrida, no seu crossfit. A fisiologia é a mesma.

Da próxima vez que você ver um jogador cuspindo água, segurando uma toalha gelada na mão ou fazendo algo estranho no intervalo, lembra: não é frescura. É alguém que entendeu como o corpo funciona e está usando isso a seu favor.

Referências

[1] Casa, D. J., et al. "Cooling interventions for athletes: An overview of effectiveness, physiological mechanisms, and practical applications." Journal of Athletic Training, 2017. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/

[2] Grahn, D. A., et al. "Heat extraction through the palm of one hand improves aerobic exercise endurance in a hot environment." Journal of Applied Physiology, vol. 99, no. 3, 2005, pp. 972-978. https://journals.physiology.org/doi/full/10.1152/japplphysiol.00093.2005

[3] Heller, H. C., & Grahn, D. A. "Stanford researchers' cooling glove 'better than steroids'." Stanford News Service, 2012. https://news.stanford.edu/stories/2012/08/cooling-glove-research-082912

[4] Grahn, D. A., et al. "Work volume and strength training responses to resistive exercise improve with periodic heat extraction from the palm." Journal of Strength and Conditioning Research, vol. 26, no. 9, 2012, pp. 2558-2569. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22926948/

[5] "A Copa do calor: Noruega impõe exames de urina diários para medir hidratação dos jogadores." The Football, 2026. https://thefootball.com.br/copa-do-calor-noruega-impoe-exames-de-urina-diarios-para-medir-hidratacao-dos-jogadores/

[6] "O que são e como funcionam os 'coletes de gelo' usados pelas seleções na Copa do Mundo." O Globo, 2026. https://oglobo.globo.com/esportes/copa-do-mundo-2026/noticia/2026/06/18/o-que-sao-e-como-funcionam-os-coletes-de-gelo-usados-pelas-selecoes-na-copa-do-mundo.ghtml

[7] "The 2026 World Cup Will Feature a Villainous Player: Extreme Heat." Inside Climate News, 2026. https://insideclimatenews.org/news/30052026/fifa-world-cup-extreme-heat/

[8] Jeukendrup, A. E., & Moseley, L. "Multiple transportable carbohydrates enhance gastric fluid delivery and availability during exercise." Journal of Applied Physiology, vol. 93, no. 5, 2002, pp. 1969-1975. https://journals.physiology.org/doi/full/10.1152/japplphysiol.00115.2002

Sobre o Autor

Guilherme Moura é nutricionista formado pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-graduação em Nutrição, Metabolismo e Fisiologia do Exercício pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Possui especialização em Nutrição Esportiva e Epigenética, com 8 anos de experiência em prática clínica e esportiva.

Fundador da NG Esportes "In the Game", Guilherme trabalha com atletas de elite, influenciadores e equipes esportivas, aplicando ciência de ponta em nutrição, termorregulação e performance atlética. Seu compromisso é transformar a rotina em um estilo de vida saudável, alinhado aos objetivos individuais de cada atleta.

 
 
 
bottom of page